quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Conversão ao álcool - 1976

Dos três carros que percorreram o país para divulgar o novo combustível em 1976, só resta um.

Neldson Marcolin

No dia 19 de outubro de 1976 três carros saíram do Centro Técnico Aeroespacial (CTA), em São José dos Campos (SP), percorreram 8.500 quilômetros através de nove estados e voltaram ao ponto de partida 23 dias depois. Aparentemente comuns, o Dodge Polara 1800, o Fusca 1300 e o Gurgel Xavante causavam espanto no momento do abastecimento: todos funcionavam com álcool, em vez de gasolina. Os carros faziam parte da Caravana Pró-Álcool, nome popular do Circuito de Integração Nacional, criado para demonstrar a viabilidade do novo combustível. “Quando enchíamos o tanque juntava gente para ver se era álcool mesmo”, conta Adilson Cavichi do Amaral, motorista da caminhonete usada no reabastecimento, que acompanhava a comitiva ao lado de outro veículo encarregado da segurança. “Alguns faziam questão de molhar a mão e cheirar para ter certeza.”


Fusca sendo abastecido


O Programa Nacional do Álcool, o Proálcool, foi criado oficialmente em 1975 por meio de decreto como conseqüência da grande crise do petróleo, de 1973. A meta principal era reduzir a importação de petróleo, vendido a preços exorbitantes pelos países exportadores. Para a tarefa de desenvolvimento do motor a álcool, o secretário de Tecnologia Industrial do Ministério da Indústria e do Comércio, José Walter Bautista Vidal, recrutou o engenheiro Urbano Stumpf, então professor na Universidade de Brasília. Formado na primeira turma do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Stumpf já realizava pesquisas com o novo combustível desde os anos 1950. Com uma jovem equipe de engenheiros reunidos no CTA, ele começou os estudos para converter motores a gasolina.
O primeiro trabalho do grupo foi descobrir quanto de álcool anidro se poderia misturar na gasolina sem perda de rendimento. Nos motores da década de 1970 podia se chegar a 15%, embora o ideal fosse 10%. Depois começaram os estudos para converter os motores – o Fusca foi o primeiro escolhido por ser o carro mais vendido. “Em um ano, de 1975 a 1976, conseguiu-se uma tecnologia de conversão confiável, e Stumpf teve a idéia de fazer a caravana para provar que o álcool poderia substituir o petróleo com a vantagem de ser mais barato”, conta o engenheiro Paulo Ewald, chefe da Subdivisão de Motor a Pistão do Instituto de Aeronáutica e Espaço do CTA, que hoje tem o nome de Comando-Geral de Tecnologia Aeroespacial.
Foi comprado um Fusca 1300, João Conrado do Amaral Gurgel, da Gurgel, cedeu por empréstimo um jipe Xavante (com motor Volkswagen 1300) e a Chrysler cedeu um Dodge 1800 – foi a única montadora que se interessou pelo projeto. Depois da caravana, o governo federal decidiu converter o motor dos carros das frotas de empresas estatais. Foram convertidos 731 Fuscas, no total. Só a Telesp, empresa paulista de telefonia, investiu em 400 deles. Apenas em 1979 uma montadora – a Fiat – passou a fabricar carros com motor original a álcool, o modelo 147.
Dos três carros pioneiros só sobrou o Dodge, enviado junto com o Fusca para leilão de sucata em 1986. “Mas fomos alertados pelo motorista Amaral e convencemos os diretores da época a aumentar o preço do Dodge para ele não conseguir comprador e voltar para o CTA”, diz João Bosco Teixeira de Souza, um dos pesquisadores da equipe de Stumpf. “Infelizmente não conseguimos salvar o Fusca, que virou sucata.” O Xavante também se perdeu. “Como a produção da Gurgel era muito flexível, meu pai trocava o motor do carro com facilidade para testar novas peças”, diz Maria Cristina, filha de Gurgel. “Provavelmente ele pegou um carro da frota da fábrica, trocou o motor e depois converteu de novo para gasolina.” Desde 2004 o Dodge está no Museu Aeroespacial Brasileiro, em São José dos Campos, depois de passar 28 anos entre as garagens das várias divisões do CTA.

Fonte: http://www.ita.br/online/2007/itanamidia07/jul07/pesqfapespjul07.htm

Revista Pesquisa - FAPESP - Edição Impressa 137 - Julho 2007.

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